Quase derrubou a xícara de café
ao ouvir aquelas palavras ásperas.
Incrível como algumas sentenças
são afiadas o suficiente para dilacerar alguém. Desta vez, elas cortaram seu
coração em milhares de pedaços. A esperança sangrou perdida em meio a tantas
incertezas. Sua respiração cessou - boquiaberta. Trêmula. Sentiu a vista
escurecer por um instante:
8 segundos de vida - vieram à
tona como um flash em sua mente.
A moça mal conseguia processar
aquela ideia capitalista-egoísta-individualista. A ansiedade a inquietava fazendo com que
mexesse a espátula do café rapidamente.
O rapaz tirou um pedaço de papel
do bolso da camisa e rabiscou alguns valores - muito convicto! - como se a vida
se resumisse em alguns números bem cheios e redondos que resolvessem todos os
seus problemas.
Incrédula, a jovem quase poderia
ouvir o som da caixa registradora toda vez que a boca dele pronunciava a
palavra "lucro".
Então, ela refletiu se ele
também não estaria ouvindo esse som: TIC TIM! – seria o único motivo para se
animar com a conversa - Desviou o olhar, pois já via o cifrão do dinheiro
nos olhos dele $ $ ... Era a milésima vez que falava sobre um acordo milionário
que fecharia com os chineses.
Alisando o cavanhaque disse:
- EU vou lucrar muito... Porém, terei que me mudar para Hong Kong...
Permaneceu muda - Mexeu os brincos, ajeitou uma mecha de cabelo
atrás da orelha. Sua mente decolava. - A razão nos torna insanos demais, às
vezes.
Para ele, a vida se resume em dinheiro e o “ lucro” é o retorno
positivo de um investimento em um negócio Chinês.
Ora, a moça pensava além do
dinheiro. Ela sentia. Ela amava. Ela ria e sonhava com o futuro ao lado dele.
Quando percebeu que ele terminou
seu discurso capitalista, a bela jovem tirou uma nota de R$ 5 reais da bolsa e
escreveu algumas linhas.
Sorriu e entregou a ele. Levantou-se da mesa e saiu em silêncio.
"querido,
Quero te fazer rir
Você quer investir
Quero te amar
você lucrar [...]
Confuso - ele a olhou caminhar rapidamente em direção à
porta, aproximando-se da rua e distanciando-se do seu coração. Antes que
pudesse terminar de ler as últimas palavras, uma brisa forte soprou na cafeteria
e a nota de cinco reais voou. Livre.
Naquele instante, percebeu como
ela ficava linda de vestido floral e como seus longos cabelos dançavam ao vento
do verão. Observou-a até virar a esquina
e desaparecer com o sol daquela tarde.
(Vanessa Spagnol de Campos)
(Vanessa Spagnol de Campos)

