Polifonia Literária

Num mesmo texto, se fazem ouvir “vozes” que falam de perspectivas ou pontos de vista diferentes com as quais o locutor se identifica ou não”. A esse fenômeno se dá o nome de Polifonia.

Nesse sentido, o Blog foi criado com o intuito de reunir a minha, as nossas vozes - Ecoar ideias.

Assim, os textos são construídos em interação com seus comentários, meu caro leitor, numa Polifonia literária!

Sinta-se livre pra comentar!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

R$ 5,00 de REALidade


Quase derrubou a xícara de café ao ouvir aquelas palavras ásperas.
Incrível como algumas sentenças são afiadas o suficiente para dilacerar alguém. Desta vez, elas cortaram seu coração em milhares de pedaços. A esperança sangrou perdida em meio a tantas incertezas. Sua respiração cessou - boquiaberta. Trêmula. Sentiu a vista escurecer por um instante:
8 segundos de vida - vieram à tona como um flash em sua mente.
A moça mal conseguia processar aquela ideia capitalista-egoísta-individualista.  A ansiedade a inquietava fazendo com que mexesse a espátula do café rapidamente.
O rapaz tirou um pedaço de papel do bolso da camisa e rabiscou alguns valores - muito convicto! - como se a vida se resumisse em alguns números bem cheios e redondos que resolvessem todos os seus problemas.
Incrédula, a jovem quase poderia ouvir o som da caixa registradora toda vez que a boca dele pronunciava a palavra "lucro".
Então, ela refletiu se ele também não estaria ouvindo esse som: TIC TIM! – seria o único motivo para se animar com a conversa - Desviou o olhar, pois já via o cifrão do dinheiro nos olhos dele  $ $  ... Era a milésima vez que falava sobre um acordo milionário que fecharia com os chineses.
Alisando o cavanhaque disse:
- EU vou lucrar muito... Porém, terei que me mudar para Hong Kong...
Permaneceu muda -  Mexeu os brincos, ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sua mente decolava. - A razão nos torna insanos demais, às vezes.
Para ele, a vida se resume em dinheiro e o “ lucro” é o retorno positivo de um investimento em um negócio Chinês.
Ora, a moça pensava além do dinheiro. Ela sentia. Ela amava. Ela ria e sonhava com o futuro ao lado dele.
Quando percebeu que ele terminou seu discurso capitalista, a bela jovem tirou uma nota de R$ 5 reais da bolsa e escreveu algumas linhas.
Sorriu e entregou a ele.  Levantou-se da mesa e saiu em silêncio.

"querido,
Quero te fazer rir
Você quer investir
Quero te amar
você lucrar [...]   

Confuso -  ele a olhou caminhar rapidamente em direção à porta, aproximando-se da rua e distanciando-se do seu coração. Antes que pudesse terminar de ler as últimas palavras, uma brisa forte soprou na cafeteria e a nota de cinco reais voou. Livre.
Naquele instante, percebeu como ela ficava linda de vestido floral e como seus longos cabelos dançavam ao vento do verão.  Observou-a até virar a esquina e desaparecer com o sol daquela tarde.


                                                                                                 (Vanessa Spagnol de Campos)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Apartamento 52



A madrugada quente de verão a impedia de dormir. Por isso, aproveitou para escrever alguma coisa, mesmo não estando em seu momento mais criativo. A única luz que via era a da tela do monitor. Escuridão. Mantinha os pulsos firmes no teclado enquanto observava o cursor do mouse piscar - sistematicamente - na página em branco.
De repente, ouviu o que parecia ser a campainha.
Então, ela se perguntou: “ o que faria alguém às 3h da manhã no seu apartamento...”
Um assaltante - é claro!
Decidiu que não atenderia.
Para o seu espanto, a campainha persistiu. Em seguida, uma voz familiar a chamou mansinho...
A moça arrepiou. Engoliu seco. Lavou o rosto rapidamente.
A voz desistiu de sussurrar.
Fez um café e voltou a sentar-se junto à tela do computador. Porém, antes que ela digitasse qualquer palavra a voz chamou novamente:

“- achou que eu não viesse mais?”
A voz insistiu: “ - achou que eu não viesse mais, né?”

Para certificar-se de que não estaria louca ela decidiu abrir a porta.
O coração disparou, a boca ressecou, as mãos suaram.

Abriu.

Seus olhos não acreditavam, os dele olhavam fixo para os dela. As mãos dele tocaram seus braços, deslizaram sob suas costas e envolveram-na num forte abraço. Um perfume almiscarado a entorpeceu, a barba roçava seu rosto, sua boca se misturava com a dele num frenesi embriagado, lento e contínuo.
Ele trancou a porta e atirou a chave sob a mesa.
Segurava-a com decisão de quem sabe exatamente o que está fazendo, no controle da situação.
E talvez fosse tarde - apesar de cedo - pensou, quando, notou que seus pés não sentiam mais o chão - Afinal, já flutuava dois palmos acima dele. Quando se deu conta ele a levava como quem segura o mundo em suas mãos.
Ofegante, fechou os olhos e sentiu os movimentos cadenciados, a textura das mãos grandes que a apertavam com disposição, os lábios se tocavam sem pressa, sem hesitação.
As mãos correndo-lhe junto à pele, fazendo o sangue ir mais rápido e mais quente, numas de subir todo à face, enquanto o ar do mundo todo lhe entrava pelas narinas e a fazia descobrir toda a capacidade dos pulmões.
Abria os olhos e via o rosto dele cheio de ensejo. Fechava-os novamente e sentia todos os músculos de seu corpo arderem de desejo.

A luz forte da manhã fez com que ela abrisse os olhos e visse a tela do seu monitor. Deu-se conta de que estava sentada na cadeira junto à mesa. Olhou ao seu redor. Nada. Ninguém.
Maximizou a tela em que estava escrevendo na noite anterior, deparou-se com uma frase:

“Eu vim pra sempre”

Assustada foi até a porta e verificou se a sua chave ainda permanecia na maçaneta. Sim, estava lá! Não aconteceu nada. Foi um sonho!
Saiu cantarolando, aliviada, coisa que durou alguns segundos...Olhou para a mesa da sala. Ficou imóvel.
Lá estava uma estranha c-h-a-v-e com um número colado.

“Apê.52”.


(Vanessa Spagnol de Campos)